Textos

A voz do além
A     VOZ     DO     ALÉM
Personagens:  o marido – Antonio Albuquerque da Silva
        a mulher – Lucia Pereira da Silva
O homem do campo, sertanejo da pele de couro, chega em  casa no fim do dia, cansado, e com cara de  eterno sofredor; o desgraçado que carrega os pecados do mundo nas costas dobradas de tanto transportar seus pesos e os da humanidade no lombo ardido de tanto  sol.   Ainda assim tem senso de humor, e não pensa duas vezes antes de soltar uma retumbante gargalhada, por qualquer coisa diferente de sofrimento. Chega com um grande facão pendurado no flanco, uma espingarda atravessada nas costas, uma “peixeira”  na cintura; a bota com um  buraco  mostra o dedinho com um curativo, a calça rasgada na altura do joelho, e os óculos pendurados no nariz. UMA FIGURA EXÓTICA.  
A mulher, sonsa e satírica, bem humorada, não perde uma  oportunidade  em  deixar uma pessoa em saia justa. Faz brincadeira com tudo. Perde  o amigo, mas não perde a piada...
Lucia olha para o marido com ares de burguesa arrependida e pergunta:
_Veio da guerra, foi?
_Da guerra de todo dia, daquela que trás o pão pra mesa faça sol ou chuva: quer saber mais?
_Pão! Tem não! Mas tem macaxeira, embora toda brocada. Serve?
_Fazer o quê? Com fome não  fico. Manda ver...
Começam a comer em silencio, e Lucia olhando para o marido por debaixo das pestanas. Resolve dizer:
_Amanhã ocê vai trabaiá não! Manhã ela vem, quer falar...deve ser pra pedir, como sempre.
_E quem é ela? É alma penada, é? A bruxa voando na vassoura? Por que você não diz as coisas direito?
_Vassoura não tem não, precisou vender, mas ta chegando da feira, e ela é sua mãe. Será que ela vem de branco e zuando pelo meio do caminho?
_O que é que minha mãe quer comigo? Já nun dei a ela o dinheiro do mês?
_Que deu, deu, mas faltou dizer!!
_Dizer o que?  Se já dei, como faltou?
_Faltou você dizer pra ela não comprar cachaça pro  seu pai.
_Que conversa é esta? Meu pai já morreu faz é um tempão!
_Que morreu, morreu, mas ela dá a bicada do santo, a da alma do teu pai, e toma o resto.
_ Nem santo bebe, nem alma também; que presepada é esta? E agora o que é que faço?
_Não faça, mas mande dar, e outra  coisa,  santo e alma é tudo igual, porque todo caminho dá na bodega.
_Dar  o quê, mulher?
_ Dar um susto nela, Um  susto bem grande, pra nunca mais ela querer dar bicada pro santo, que santo não bebe, ora.
_E como é que faço isto? Pode me explicar?
_Claro, já cuidei de tudo... ele tai
_Ele quem, Lucia, pelo amor de Deus?
_Jairo, quem mais?
_E  quem  Diabos é Jairo?
_Escolha um ou outro, os dois não dá, vai ser uma confusão dos infernos.  IIIHH!! Lá to eu misturando Santo com Inferno.
_De que dois ,você ta falando, quer me deixar doido  é?
_Eu não, e você já é  pra mais do contrato; quem me dera!
_Agora sim, é que não estou entendendo mais nada. Primeiro você fala em dois, depois diz que já sou, não explica nada, e não quer que eu enlouqueça?
_Homem de Deus, é pra  você escolher entre Deus e  o Diabo, você fica falando nos dois. E doido você já é há muito tempo, meu marido, só não lhe avisaram ainda.  Mas eu  gosto de tu, doidinho mesmo. Vem pra cá, me dá um cheiro no cangote, Toinho!
_Tudo bem, mas o  que é que Jairo ta fazendo na nossa casa?
_Esperando as instruções, sabia não, é?
_Instruções pra quê, Lucinha?
_Pra dar um susto na tua mãe, pra ela deixar de beber!.
_E como é que Jairo vai fazer isto, se ele nem conhece a véia?
_Desde quando pra dar um susto precisa conhecer, basta ter coragem, homem! Ele sobe na cumieira da casa, afasta uma telha, fica olhando pra cozinha e quando Dona Izabel  for  tomar seus dois dedos, ele joga uma cobra nos pés dela. Quero ver ela beber mais nem  um gole!
_Não senhora, ela é minha mãe e ninguém vai  jogar cobra nos pés dela, a pobrezinha vai morrer de susto.
_Esta é a idéia, ora!
_Você quer matar minha mãe, é Lucia? Quer que eu lhe mate antes, é disgranhenta?
_É só um susto, homem de Deus! Tá  bom, vou dizer pro Jairo   como ele tem que fazer.
_E como ele vai ter que fazer? Cuidado com a saúde da minha velha. Não mate a probrezinha de susto, não.
_Sincomode não, ela não vai morrer não, é só um susto dos grandes, para nunca mais botar uma pingo de cana na boca.
Lucia instrui Jairo bem direitinho para ele não errar em nada.
_Veja bem Jairo! Você fica escondido atrás da porta do quarto olhando pela brecha, e quando ela encher o copo de cana, você ronca como porco  preguiçoso. Ela já vai  ficar assustada, mas vai continuar porque acha que deve um favor ao marido defunto, e também porque uma bicada não faz mal a ninguém.
Quando ela  toma a cana e estrala a língua, você sai correndo de trás da porta com um lençol estirado pra cima e joga  na cabeça dela, dizendo:    FAÇA ISSO MAIS NÃO, MINHA BICHINHA!, SENÃO EU VOLTO PARA PUXAR SEUS PÉS QUANDO VOCÊ ESTIVER DORMINDO.
Dá um grito bem grande no pé do ouvido dela e sai correndo pelo terreiro afora. Ela vai ficar tão assustada que nem vai saber o que aconteceu.
E pra terminar a história, Isabel ficou com tanto medo da alma do marido  morto, que nunca mais tomou nem uma bicada de cana; ainda bem!
O filho ficou satisfeito com a artimanha da mulher, com a coragem do amigo, e com a sobriedade da mãe.
A nora emprestou mais alguns anos de vida para a sogra querida, gozou com a tranquilidade do marido e com a paz em suas casas. Final feliz na vida da família.

Anchieta Antunes
Gravatá – 06/03/2015.

Anchieta Antunes
Enviado por Anchieta Antunes em 09/04/2015


Comentários


Imagem de cabeçalho: raneko/flickr