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Distancia
D   I   S   T       N     C      I       A     ...

Quando estou com  saudade dela subo na minha caleça e vou procurar por ela. Às vezes ela está escondida bem longe,  depois da penúltima curva do destino, conversando distraída com o medidor de  estradas. Não está nem aí  pra “bem perto”. Dele só  quer lonjura, porque “bem perto” é muito conversador e toma todo o tempo que ela tem pra trabalhar, ou seja, para ir para bem distante de tudo,  de todos, até mesmo da saudade, de quem é muito amiga e até mesmo comadre. Algumas vezes a saudade arma pra ela  e a carrega pra perto do homem que está com saudade da distancia; Sabe! Aqueles homens que gostam de viajar, de conhecer outras ruas, praças e coretos. Teve  um vaqueiro com sangue nos olhos que ficou com raiva da distancia, e sem nenhuma cortesia, a levantou pelos cabelos colocou dentro do matulão, montou no seu cavalo e a levou para uma praia bem distante. Lá naquela lonjura,  abriu o saco de couro, despejou  seu desafeto na areia quente e disse com desafio:_ agora quero ver você ir pra bem distante de mim. Você sabe  que eu te amo, mas sempre que me descuido, você escapole e vai pra bem longe de mim! Ora! Por que não me leva, você não sabe que adoro  viajar, ir pra bem longe de tudo? Ficar escondido no sovado da madrugada, conversando com as estrelas, perguntando onde fica o esconderijo de Deus?
Com afeto ou desafeto, quando estou sozinho no mato, me deito na cama de gato, fico olhando pra  lua, e quando ela pisca um olho pra mim,  querendo me namorar,  digo bem  baixinho pra ela não escutar: meu  amor, você está muito distante, venha mais pra perto e vou te mostrar com quanto paus se faz uma jangada, com quantos milhos se prepara um  curau, e onde fica escondida a beira do beijo roubado, aquele beijo que o vento safado, com raiva do meu amor por você, levou nas suas asas pra bem longe de mim. Um dia eu pego ele e trago  você de volta pra mim.  Vem pra cá, vem!
Ouvi dizer que a distancia não carrega mala, nem  saco, nem pavio, porque não quer se comprometer com ninguém, com nada, nem mesmo com datas. Eita, ente de Deus arrenegado! Tudo que ela vê,  pega e  leva  pra bem distante e deixa por lá vagante , e quem quiser que vá  buscar, na casa do bacurau, ou no tronco do pica-pau.  
Também me disseram que a distância só tem compromisso com a solidão, e às vezes se  senta triste e sisuda em cima daquela pedra  pra pensar na vida do viageiro que um dia ela levou, e não lembra  onde deixou, e fez ele abandonar mulher e filho na Lagoa do Mundaú, pescando peixe com chuva, matando lebre com vara, cuspindo poeira e pancada, e levando pra mãe em casa, apenas a calça rasgada. É num momento deste que tenho vontade de gritar:_Distancia, deixe de ser malvada, pegue o homem pelo braço e leve ele pra casa, que Maria ta morrendo de saudade, e  é  só pele e osso, os olhos esbugalhados  e  a  barriga nas costelas. Ela só pensa nele  e  me disse que quer morrer bem “pertinho” do  cheiro do couro do  seu  vaqueiro,  passar a mão nos seus  cabelos rebeldes, duros como  espinho de “cardo  santo”  benzido pelo anjo da cura milagrosa. Ela grita no meio da noite, no claro da lua cheia, com vontade e hombridade>_ Vem homem de Deus, vem pra pertinho de mim, me dá um cheiro e me deixa morrer  feliz, pelo menos uma vez na vida, na hora da despedida.
Maria  ainda  grita   com toda a força amorfa de seus pulmões esburacados:
_DISTANCIA, se transforme, pelo menos uma vez, em “BEM PERTINHO”, e traga ele pra junto de mim, pra eu lhe dar um último beijinho.
                ADEUS DISTÂNCIA, VAI PRA BEM LONGE DE MIM!!!

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá – 1º de dezembro de 2014
Anchieta Antunes
Enviado por Anchieta Antunes em 20/04/2015


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