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Âncora
    Â  N  C  O  R  A
Sinto minha alma ancorada no grande lago da imobilidade, do olhar distante sem conseguir enxergar o longínquo alvorecer que um dia virá. Sei que todo aprendizado que frutifica é lavrado a ferro e fogo, e contém a têmpera do mais puro aço de Toledo. As bênçãos descem em filigranas emaranhadas, carecendo de um código de decifração; sentimos como uma vespa zumbindo no ouvido, mostrando o caminho que vai desintrincar as lianas que pendem para nos confundir, tornando-nos desesperados sem saber qual caminho tomar para chegar ao cais da clarividência.
A âncora pesa nas pernas, no corpo, na língua, no olhar difuso, na tomada de decisões, no espirito em dúvida, na consciência desesperada para encontrar a saída do labirinto do Minotauro. Ariadne e seu novelo de lã nem sempre está presente.
Não devemos pecar para depois conseguir o perdão; o pecado é como um peso que nos transporta para o fundo da lagoa da desesperança. O pecado não flutua. O perdão não mergulha. A culpa não decide. Somos frágeis e dependentes dos desígnios de Deus.
Eu fui acorrentado a uma âncora para aprender algumas lições que me haviam passado despercebidas durante minha vida de trabalhador responsável. Quando labutava não tinha tempo para aprender a viver, apenas para trazer para casa a feira da semana. Deus me deu um tempo de calmaria, de aprendizado, de exemplos e educação purificadora. Só tenho a agradecer a fratura de minha perna, o presente de meu momento filosófico.
Aprendi a ver com a alma, aprendi a sentir com a paciência de um espírito domado, e, ermitão aprendi a reconhecer a essência da simplicidade, aprendi a beatificação da humildade, aprendi a amar com todas as forças de meu coração forte em doação de esperanças e benevolência. Aprendi que ser homem, é antes de tudo, ser humano e humilde diante de Deus.
Quero voar no colosso dos ventos, percorrer caminhos desconhecidos, olhar com atenção os pequenos detalhes de cada ação vinda ou acontecida à deriva de nossa vontade; quero aportar no desfiladeiro do além-ignoto para fincar em seu solo fértil minhas raízes de aprendiz, de espirito aberto a novas descobertas; quero aprender a olhar para outros horizontes onde a cada instante mudam as cores do arco íris que prolifera diante de nossos olhos encantados com tamanha e fecunda peculiaridade de congraçamento celestial.
A âncora que tenho presa a meus pés está, aos pouquinhos, desfazendo-se em espuma de prata, em sonhos a serem realizados, em promessas de altruísmo e generosidade. A âncora que tenho presa a meu corpo, sinto que está a esvair-se na esteira do rio que corre para o abraço oceânico, e carrega consigo todas as dores sentidas, as agonias sofridas, as solidões acontecidas nas abrasadoras noites de lume eterno. Ao encontrar-se com o sal eterno em salubridade, vai absorver todo o sofrimento que suportei silente e abnegado e o levará para o fundo do mar para misturar-se com algas e corais, onde permanecerão confiando as barbas de Poseidon. Minha âncora será o tridente do Deus dos Mares, que a segurará com sua força indômita e avassaladora. Presa ali ficará para o usufruto do resto da eternidade, longe de mim, de meus pés, de meu jugo, longe de minha liberdade. Voltarei a caminhar meus passos, ainda que incertos, que me levarão para a floresta das deusas da felicidade, dos anseios de amor e reverência, de onde transcenderei para os eflúvios da síntese da benevolência e compaixão.
Terei aprendido a amar e a acolher com candidez o amor advindo de almas castas, de espíritos purificados e elevados.
A minha âncora muito me ensinou, despediu-se e partiu para outros pés necessitados dos ensinamentos divinos. A roda da vida não para de rodar e de ensinar a erudição celíca.

Anchieta Antunes – copyright.
Gravatá – 04/11/2015.
Anchieta Antunes
Enviado por Anchieta Antunes em 31/01/2016


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